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NOV / 1987

NOV / 1987

Para muitos eles não tinham nada a acrescentar ao rock nacional. Chegaram até ser tachados de a nova direita. Mas, para os próprios Engenheiros eles valem muito pouco para despertar tanto bla-blà-blà. Tudo bem – musicalmente eles estão mais para uma velha-nova jovem guarda do que para o rock inglês. E, apesar de todo sucesso, esses três gauchos continuam morando em Porto Alegre e se preocupando com seu próprio mundo. São solitários… Talvez por isso mesmo eles demonstrem, nesta entrevista, um discernimento menos nebuloso sobre as coisas do mundo, do indivíduo e da máquina fonográfica, à qual todos que pertencem a esse meio estão ligados. Sônia Maia, que torcia o nariz para o grupo, confere e aplaude.

BIZZ – De onde saiu esse nome, Engenheiros do Hawaii?

Carlos – Na verdade é uma banalidade total. Quando a gente começou a tocar, a idéia era fazer um só show. Uma bela tarde de novembro de 85 decidimos por Engenheiros do Hawaii, que eram as duas piores coisas que a gente poderia imaginar.

Humberto – A maior agressão a nós mesmos; o que mais poderia nos prejudicar.

BIZZ – Por que esse autoflagelo?

Humberto – Em todas as vinte e quatro músicas que gravamos tem esse autoflagelo. Acho que é um sentimento de culpa por fazer parte desse segmento social (músico). Acho besteira quem está nesse meio sair dando uma de herói, com positivismo, tentando salvar o mundo a partir do lugar onde está. É uma forma de purificação, entende? O “rock´n´roll” só existe enquanto clichê tem que ter discernimento para ver isso. Tem que ter uma vontade para estar vivendo nesse fim de século, nesse fim de monetarismo. Acordar numa segunda-feira e dizer: “Pó, estou em 87, mas O lron Maiden é demais!” E comprar os discos e viajar nessa espontaneidade. Não sei por quê. Talvez muitas cabeças modernas.

Carlos – A gente já partiu do pressuposto de que não valíamos nada. Mas esse pressuposto te leva a fazer coisas interessantes. Acho que as pessoas que não valem nada podem fazer coisas interessantes… Nossa influência é eminentemente fonográfica. Não vamos a nenhum show de rock. Eu si o Genesis, que é pior do que não ter visto nada.

BIZZ – Me disseram que você, Humberto, e o Carlos (o guitarrista Augusto Licks é recém-ingresso) são pessoas solitárias. Talvez isso tenha a ver com todo esse levianismo.

Humberto – É… somos muito chatos. Por incrível que pareça levamos muito a sério essa coisa de tocar. Por isso somos levianos Somos solitários como todo mundo é, queira ou não. E tem uma coisa super boa na solidão que é a transa de ser rápido, franco-atirador. Nenhum franco-atirador pode ter família, ficar com as mesmas idéias o tempo todo. Nesse sentido usamos a solidão – para atingir a nós mesmos. Estamos tentando entrar nesse rolo total de música, que no ano passado se chamava de mundo rock e nesse ano não sei como se chama. E é super difícil ser individual hoje em dia. É meio indigesto…

BIZZ – Falem diferenças do disco anterior (Longe Demais das Capitais) e este (A Revolta dos Dândis).

Humberto – O primeiro era uma pintura de algo que tu estava vendo e este é uma pintura de algo que tu está sentindo. É uma coisa extremamente careta esse jeito que eu transo música – de ser uma pintura, de ser uma forma de expressão, de ser um espelho. Mas é o jeito que eu posso transar – não posso ir adiante de minhas pernas. Eu ainda estou nessa, de achar que música é um meio e não um fim. Agora, é difícil extrapolar além disso. A gente não pode falar que mudou – ficou mais leve, mais pesado, tem mais ritmo, menos ritmo. Gostaria que alguém falasse sobre isso. Vou estar atento sobre o que vão escrever a respeito. Sabe, gosto dessa coisa de não saber qual é. Talvez seja uma incapacidade de dominar o processo. Mas eu gosto de fazer e ficar torcendo.

BIZZ – Quando ouvi a fita do disco, ela me remeteu para uma época bem próxima à jovem guarda. Vocês acham que isso tem a ver?

Humberto – Não sei distinguir muito movimentos e fases. Somos super influênciados pelos franceses dos anos 60 – Sade, Camus, aquela baboseira toda. Sou super tiete desses caras. E o Júlio Reny (representativo compositor gaúcho que faz uma participação nesse segundo LP dos Engenheiros) me abriu os olhos para um lance: ele descobriu um Roberto Carlos existencialista, que é uma ponte que eu nunca teria feito. Pensando bem, tem uma série de condicionantes – os caras não abriam mão da canção; a gente também não abre mão da canção.

Carlos – Não sei se Roberto Carlos leu Oswald de Andrade. De repente, nem leu. Mas ele tinha uma coisa super antropofágica. Ele teve a consciência de sacar que não bastava apenas cantar o iê-iê-iê – tinha de traduzir ele para o Brasil. Ele estava engolindo e devolvendo para as pessoas que viviam aqui. Isso, pelo menos, a gente tem a pretensão de fazer.

BIZZ – Tem um lance interessante no encarte do disco, que são aqueles personagens – do Jeca Tatu a Noel Rosa e, embaixo, aquela fileira de presidentes brasileiros. Inclusive o jeito como vocês colocaram o Iron Maiden lá, parece que o boneco está exorcizando aqueles políticos.

Humberto – O Maiden é uma coisa que a gente está citando bastante porque, por incrível que pareça, é uma descoberta recente da banda – bandas que viraram as bruxas, as malvadas. São os grandes dinossauros! E pintou essa coisa de botar o Maiden acima daquelas pessoas babacas. A racionalidade desses presidentes é muito superficial. No fim são muito mais surreais que um bonequinho de banda de heavy metal. É Gabriel Garcia Marquez, mesmo. Aquela coluna que sobe, numa ascendente, aquilo é o sonho: vai do Roberto Carlos a Noel Rosa, passando pelo carinha da seleção, o Garrincha. Ali embaixo é a âncora. O Iron tentando subir a âncora mas não dá.

BIZZ – E o TFP que aparece no meio dessa ascendente?

Humberto – É uma brincadeira… porque de uns tempos para cá fomos tachados de ser a nova direita por pessoas que são a velha direita. Isso pelo simples fato de a gente, porra, não embarcar mais no barco de que empunhar uma guitarra seja algo de novo, revolucionário, que incomoda. Quem incomodava era o Chuck Berry, que era negro, não tinha grana, fumava nos anos 50, nos EUA. Então queremos instigar essa jogada: como é que nós somos da direita? O que a juventude tem feito? Comprado guitarra importada? Tem colocado alavanca nas guitarras? Qual e a dela? Ainda mais essa pequena elite da juventude que se informa um pouquinho e só serve para patrulhar o resto, tachando as bandas que transam heavy metal de acéfalas. Que neurônios a mais têm o Roberto Smith em relação ao Bruce Dickinson? E essa jogada da TFP é para provocar mesmo. E duvido que as pessoas que nos chamam de nova direita reconheçam que aquilo é um TFP. Elas viajam muito no fascismo alemão e italiano dos anos 40, que é o fascismo que aparece no bang-bang depois da novela da Globo.

Carlos – O lron Maiden, pelo menos para mim, o que mais atrai – fora o som dos caras – é a jogada deles serem completamente impossíveis. Eles apareceram numa época em que era impossível uma banda daquela dar certo. E eles provaram para o mundo que as coisas não mudaram muito. É uma velha banda de rock´n´roll. As mudanças que estão introduzindo na jogada do heavy são muito pouco conscientes. Certas coisas que o Purple fazia não serve para as bandas que estão tocando hoje. Os caras querem tocar mais rápido, mais violento. A guitarra já não pode ser tão livre. Os caras são movidos por leis extremamente práticas, do cotidiano, nada filosófico. Isso é uma atitude de engenheiro. Nesse tipo de coisa eu acredito profundamente.

BIZZ – Como vocês chegaram ao público e à mass media?

Humberto – Sou meio cabreiro em analisar, porque depois fica difícil você não ficar viciado em sua própria análise. Mas eu ouço aquele disco e digo: “Porra, tem uma grande canção nesse disco e tem uma banda muito ingênua nesse disco”. Gosto de pensar que as pessoas ouviram essa ingenuidade e esse monte de asneira que a gente fez, misturado com coisas boas e legais.

BIZZ – Vocês comentaram que havia tido um lance com a gravadora que prejudicou o trabalho… O que rolou?

Carlos – Esse lance de gravadora…acho que tem muita choradeira nessa história. A RCA é sabidamente uma das gravadoras mais impessoais que tem por aí. Inclusive rola um papo no meio pessoas que acham que tal gravadora mais legal porque o diretor artístico mais sensível, dá mais atenção à banda, a outra tem uma mídia mais legal. Mas eu sempre achei – e continuo achando – que essas coisas não nos interessam e não deve interessar muito às bandas. Olha, f*-se! A gente foi prejudicado por coisas do tipo: lançaram um disco e, antes das pessoas que recebem o disco ouvirem, estão lendo um release feito por um irresponsável, um babaca que diz que a banda é o Paralamas do Sul. É esta a idéia que está na cabeça do diretor de produção da gravadora, que é um cara extremamente grosseiro… e não tem obrigação alguma de não ser grosseiro! Eu não quero um diretor de produção sensível. Prefiro até que seja o mais hipócrita.

Humberto – A gravadora quer te vender como o rock do verão, o novo símbolo sexual, o novo som do Rio Grande do Sul. Mas se tu é chamado Engenheiros do Hawaii, são três caras completamente feios e sem graça e não tem rock no Rio Grande do Sul, acaba ficando uma coisa extremamente engraçada. Isso se tu é suicida e está preparado para levar ovo no show. Nos prejudicou? Não. Ficou grotesco essa coisa de gravadora insensível achar que todo cantor de rock pode ser um símbolo sexual e de achar que toda banda de rock pode ser um novo modelo ou uma nova onda. Ficou tri Engenheiros do Hawaii. Essa é a nova onda do verão 87? Então vai todo mundo morrer afogado!

Carlos – A pessoa que transa imprensa já pediu: “Pô, vem aqui um dia e me explica como é a banda de vocês, já que estamos cometendo erros”, e tal. E uma coisa que não me interessa. Não quero que esses caras sejam esclarecidos sobre a gente. Quero que eles peguem o nosso disco e coloquem no mercado.

Humberto – A gente não pode perder tempo tentando aperfeiçoar a gravadora. Tentar ser super profissional e ganhar uns pilas a mais dela é tão capitalista quanto você ser de uma gravadora. Quero mais que eles me afanem, roubem minha grana. O que eu acredito em quatro cordas, não em quatro cifras. Muita gente deve achar super chato ouvir isso. Minha mãe deve achar super chato ouvir isso. “Pô, meu filho é um irresponsável”. Mas eu sou, cara. Acho que a grande poeira que tu pode botar na máquina é essa irresponsabilidade consciente para caramba. É o que se pode fazer. Da gravadora, quero mais que eles façam o disco redondo, que caiba no toca-discos e que tenha um furinho no meio. O resto eu faço. Não gosto de pensar que a gravadora possa me prejudicar tanto. Ela pode cancelar meu contrato ou não.

BIZZ – Vocês disseram que as pessoas daqui não sacam como é diferente ser uma banda de Porto Alegre. Como é ser de Porto Alegre?

Carlos – Tem uma coisa que rolou no primeiro disco que eu ouvi bastante. As pessoas acharam um disco desnecessário para o rock nacional. É um disco fora de moda para caralho, não competitivo com o que está rolando hoje no rock nacional. E é impossível que a gente faça alguma coisa diferente, porque Rio Grande do Sul é um lugar meio parte do país. As pessoas de lá ainda estão ouvindo essas coisas… Por exemplo, eu não posso montar uma tralha tecnológica que me impeça de viver no universo em que eu existo. Eu existo no Rio Grande do Sul, existo no Brasil.

Humberto – Eu não quero ser viável. Acho que essa bandeira não é minha, mas acho que sou viável. Não preciso porra nenhuma que eu não tenha – minha urgência é muito maior que minha carência. Essa jogada é longe demais das capitais – o barco está sendo afundado por um furo que está muito longe dos nossos pés.

BIZZ – Augusto, você tocou com Nei Lisboa, tem anos de estrada… Como foi entrar para o Engenheiros do Hawaii?

Augusto – Para mim foi uma porrada na cara – eu estava olhando para um lado e me deram uma porrada na cara e eu acabei olhando para o outro lado. Tem todo um processo pessoal também, um lance de atitude. Já chamaram de melhor guitarrista, um cara com formação jazzista e, de repente, estou numa banda de rock. Estou numa parada mais limitada e esses limites, contraditoriamente, me livraram um aprisionamento.

Humberto – Resumindo, acho que ele fez uma grande besteira, o que prova que ele é um Engenheiro do Hawaii. Ele fez uma coisa leviana, inesperada, ele deu a curva, ele foi Godard para caramba na volta. E o Augusto abriu mão de uma coisa que estava super segura para ele, como a gente abriu mão de coisas que estavam super seguras para a gente, que era a nossa formação – a arquitetura -, ou a possibilidade de continuar ganhando disco de ouro.

BIZZ – Tem uma coisa que é mais uma colocação que uma pergunta. As letras de vocês, pelo que eu observei, expressam bem o tempo que a gente vive…

Humberto – Acho que é a idéia do blá-blá-blá do pós-moderno. Muita gente fica discutindo como se fosse uma coisa passível de discussão. Como se uma doença que se pega fosse passível de discussão. Como se o fim de semana que chega fosse passível de discussão. Não passível de definição. A gente está vivendo uma era e quem não está assumindo está perdendo um tempo. Uma geração atrás eu estaria onde? Careta, colhendo cenoura numa horta do Rio Grande do Sul. Vinte anos depois eu estou em contato com Syd Barrett. Quer dizer, eu não posso bicar essa coisa colônia que eu tenho por causa do Syd Barrett. As coisas acontecem simultaneamente.

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