Tags

Domingo, meia-noite. Pelas ruas, becos e largos do Centro Histórico, tombado como Patrimônio da Humanidade, o silêncio é quebrado por alguns passos de vadios, putas, travestis – todos retardatários do ensaio já findo do Olodum – e por um carro cheio de seres alegremente chapados, dentre os quais dois Engenheiros: o poeta e canário Humberto Gessinger e o batera Carlinhos Maltz. O terceiro, o big guitar man Augusto Licks, tinha ficado no hotel em frente ao mar de Ondina.

Entre piadas, brincadeiras e observações velozes, o cansaço feliz pelo retorno à capital baiana após apenas quatro meses, traduzido num showaço para mais de quatro mil pessoas há poucas horas atrás.

Flash-back. Às 18 horas ainda não estava cheia a Concha Acústica, algo natural num dia em que o sol caprichou nessa estação no inferno.

O público começa a pedir a presença dos guris no palco. Em tempo de aquecimento para entrar, nada mais justo que Humberto coloque uma camisa esportiva canarinho com o nome do Brasil e brinque com sua brancura numa terra tão morena e negra. \”Se você soubesse o mal que o sol me faz, não me pediria para repetir revoltas banais das quais eu já me esqueci\”, é a senha revelada em \”Vozes\”. Mas olhando e conversando com eles fico pensando por que eles provocam tanto amor e repulsa entre a crítica. Será porque recusam os fáceis caminhos do estrelismo? Ou será, ainda, porque não têm vergonha de expor publicamente suas possíveis deficiências, transformando-as numa arma de simplicidade para a conquista? Questão de estilo: \”Nem sempre faço o que é melhor para mim/ Mas nunca faço o que eu não estou a fim de fazer\”, como diz a letra de \”Nunca se Sabe\”.

Às 19 horas começa a festa. \”Ouça o Que Eu Digo: Não Ouça Ninguém\” abre e, de imediato, a platéia se sintoniza, servindo de toque para \”Longe Demais das Capitais\”, emitindo sinais de que os arranjos estão cada vez mais diferentes, o que é uma qualidade numa banda, \”Refrão de Bolero\” só tem de lenta o título, se transformando no canal certo para a herança blusística de Augusto, principal responsável pelo som de garagem norte-americano que os Engenheiros possuem. Com o que concorda Herbert Vianna, marcando presença, bem como Bi e Barone, que depois trocariam figurinhas no camarim. E a viagem musical seguia deixando a galera ensandecida: \”Além dos Outdoors\”, \”Pra Entender\”, \”A Revolta dos Dândis I e II\”, \”Variações Sobre Um Mesmo Tema\”… Novas e velhas canções entre hits acompanhados em coro, como \”Toda Forma de Poder\”, \”Terra de Gigantes\” e \”Infinita Highway\”.

Depois do inevitável bis, uma certeza: a alquimia da guitarra de Augusto sobre as letras espertas de Humberto, aliada à bateria cheia de garra de Carlinhos, cada vez mais traduz com perfeição a força roqueira de três caras que ainda acreditam no poder do \”calo e do suor\”, segundo o blondie. Não há discordância entre intenção e gesto porque, como diz a letra de \”Cidade em Chamas\”: \”As chances estão contra nós/ Mas nós estamos por aí/ A fim de sobreviver/ Como um avião/ sobrevoa/ A cidade em chamas\”.

Hagamenon Brito

Anúncios