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Foto Daniel de Andrade

Foto: Daniel de Andrade

Entender gírias antigas é tarefa inglória. O escritor Ricardo Freire dá uma aula sobre ‘deu pra ti’:

 

Deu pra mim

Mês passado eu escrevi uma ‘Xongas’ sobre o ‘Dicionário de Porto-Alegrês’ do professor Luís Augusto Fischer (Ed. Artes e Ofícios, 12.ª edição), um livro muito tri. Choveram e-mails – de porto-alegrenses e simpatizantes.

No finzinho daquela coluna, eu prometi que voltaria ao assunto na primeira oportunidade, para esclarecer de uma vez por todas o significado da enigmática e controversa expressão ‘deu pra ti’. Pois muito bem. A oportunidade chegou.

Espero não contribuir para o fim do carisma do ‘deu pra ti’. Na verdade, a mística dessa expressão reside justamente no fato de quase ninguém ao norte da divisa do Rio Grande com Santa Catarina entender o seu real significado.

Nunca vou me esquecer de um show da etapa porto-alegrense do Projeto Pixinguinha, em 79, em que Zezé Motta e Luiz Melodia apresentavam uma certa Marina (vestida num macacãozinho preto, colado no corpo, com uma guitarra elétrica pleonasticamente escondendo suas curvas de violão).

Lá pelas tantas, Zezé dava uma pausa no show para fazer um merchandisingzinho (pronuncia-se merchandaisinzinho) do que estava rolando na cidade. Todas as noites (eu era tarado por Zezé Motta e, mesmo tendo que agüentar aquela menina chatinha Marina, fui nas cinco apresentações) Zezé anunciava, para gargalhada geral: “E não percam, na Casa de Cultura, ‘Deu pra você nos anos 70′”.

Não, Zezé. Ninguém deu pra ninguém nos anos 70. Quer dizer: muita gente deu pra muita gente nos anos 70, mas isso não vem ao caso. ‘Deu pra ti, anos 70’ (com ‘ti’ no lugar do ‘você’ e com uma vírgula no lugar do ‘nos’, Zezé!) era originalmente o nome de um show do Nei Lisboa, que é tipo assim o Tom Waits de Porto Alegre.

(Nei Lisboa é o Tom Waits de Porto Alegre. Vítor Ramil é o Caetano Veloso de Porto Alegre. Kleiton e Kledir são… são… bem, são o Kleiton e Kledir de Porto Alegre.) Um pouco depois (e é isso que Zezé teria que anunciar), ‘Deu pra ti, anos 70’ virou um longa-metragem em super-8, do Nelson Nadotti e do Giba Assis Brasil. O pessoal do super-8 era tipo assim o Clube da Esquina de Porto Alegre, o Lira Paulistana de Porto Alegre, o…

Mas onde eu estava, mesmo? Ah, sim. ‘Deu pra ti, anos 70’ significava simplesmente ‘Tchau, anos 70’. Ou ‘Xô, anos 70’. Ou ‘Chega, anos 70’. Ou ‘Pó parar, anos 70’. Ou ‘Acabou pra vocês, anos 70’. Ou uma mistura de tudo isso (agora entendo a responsabilidade dos dicionaristas).

O significado do ‘deu pra ti’ fica mais fácil de captar quando você entende o ‘deu’. ‘Deu’ é um dos monossílabos mais usados no dia-a-dia de porto-alegrense.

Quando você serve alguém em Porto Alegre, a pessoa nunca diz ‘chega’ ou ‘tá bom’. Assim que ela acha a porção satisfatória, ela diz: “Deu!”.

Os edifícios em Porto Alegre não têm porteiro – têm porteiro eletrônico.

Para a pessoa que você vai visitar saiba que você conseguiu abrir a porta, você precisa gritar no interfone: “Deu!”. Não é ‘abriu’ ou ‘consegui’ – é ‘deu”.

Quando alguém está explicando alguma coisa complicada e o porto-alegrense finalmente entende, ele não diz ‘entendi’. Ele diz: “Deu!”.

Note que não há absolutamente nenhuma conotação sexual nesse ‘deu’ multiuso.

Não existe sequer espaço para piadinhas. Pelo contexto, o porto-alegrense entende muito bem de qual ‘deu’ se trata – mais ou menos como você sabe em 100% das vezes se o Ronaldinho em questão é o Nazário ou o Gaúcho.

Com o que, aquele ‘deu pra ti, baixo astral’ do hit dos manos Kleiton e Kledir significava pura e simplesmente ‘xô, baixo astral’. Vou pra Porto e – bah, trilegal.

Diferentemente do ‘trilegal’, que caiu em desuso, o ‘deu pra ti’ continua firme e forte. Inclusive em suas variantes – como ‘deu pra tua bolinha’ (um ‘deu pra ti’ com uma dose extra de desprezo) e o ‘deu pra mim’ (muito útil quando você precisa bater em retirada).

Pois bem: vou passar os próximos 30 dias com o pé na estrada, do Espírito Santo ao Ceará, atualizando meu guia de praias e dando férias para os neurônios que me restam. Deu pra mim. Volto dia 17 de setembro. Fui!

[[[ Da coluna Xongas, escrita pelo Ricardo Freire e publicada no Jornal da Tarde

 

‘Deu pra ti, anos 70′ (com ‘ti’ no lugar do ‘você’ e com uma vírgula no lugar do ‘nos’) era originalmente o nome de um show do Nei Lisboa…

Cabe desfazer uma histórica confusão sobre o assunto. Deu pra ti, anos 70 foi um show de Nei Lisboa e Augusto Licks, que começaram carreira como dupla. Augusto e Nei fizeram dois shows em 79 (Lado a Lado e Deu pra ti, anos 70; Verde em 81 e Só Blues em 82. Só depois desses shows, ainda com a participação de Augusto Licks e Glauco Sagebin na banda, Nei Lisboa passou a assinar shows sozinho.

Parcerias de Augusto Licks e Nei Lisboa

  • “Lado a Lado” – Nei Lisboa e Gelson Oliveira, com a participação de Augusto Licks usando provavelmente o primeiro violão Ovation no sul do país, em 1979 no Clube de Cultura.
  • “Deu Pra Ti, Anos 70” – Nei Lisboa e Augusto Licks, dezembro de 1979, teatro Renascença em Porto Alegre.
  • “Verde” – Nei Lisboa, Augusto Licks e Boina, 1981 no teatro Renascença.
  • “Só Blues” – Nei Lisboa e Augusto Licks, 1982, apresentado repetidas vezes do bar do IAB em Porto Alegre e depois no Mistura Fina – RJ.

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