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Paulo, João, Jorge e Ringo: The Bitols

Músicos do rock gaúcho aparecem em filme que satiriza a banda inglesa em noite dos anos 90

Em 1981, o longa-metragem Deu Pra Ti Anos 70, rodado em Super 8 pelo diretor Giba Assis Brasil, arrebatou crítica, e considerável público, com sua narrativa sobre encontros e desencontros da incipiente juventude urbana de Porto Alegre. O filme tinha participações de artistas como Júlio Reny (Expresso Oriente), Augusto Licks (Engenheiros do Hawaii) e Wander Wildner (Os Replicantes), desbravadores da falecida sigla outrora conhecida como rock gaúcho. Quase 30 anos depois, Deu Pra Ti Anos 70 ainda é raro exemplo de pop fiction feita no Brasil.

Nesses tecnocráticos tempos – nos quais editar um álbum de rock tornou-se relativamente fácil -, a ficção pop, contudo, segue praticamente ignorada pelos cineastas brasileiros. Em 2010, a exceção ao gênero, novamente, vem do Sul: o longa Bitols, recém-finalizado pelo coletivo gaúcho Cinema8ito com recursos financiados, em parte, pelo Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre (Fumproarte). As filmagens custaram em torno R$ 200 mil e começaram em 2004. Evidente troça com o nome do quarteto de Liverpool, Bitols enquadra uma noite dos anos 90 na vida dessa fictícia banda gaúcha, que tem em sua formação Paulo (Léo Felipe), João (Bruno Bazzeo), Jorge (Leonardo Machado) e Ringo (Carlinhos Carneiro).

Os atores são bem conhecidos no circuito cultural da cidade: Léo Felipe foi proprietário do mitológico bar Garagem Hermética (palco no qual a Graforréia Xilarmônica fez seu show de estreia); Bruno Bazzeo toca na banda Destilantes; Leonardo Machado é ator da novela Viver a Vida. E Carlinhos Carneiro é mais popular como o frontman da banda Bidê ou Balde. “Os Bitols fazem um som tipo art-noise-punk, só que eles são muito ruins. Facilmente poderiam ser chamados de “A pior banda do mundo””, ironiza Carneiro, que promete novo disco para junho.

O diretor André Arieta conta que escolheu retratar a década por tê-la vivenciado de perto, história que, segundo ele, estava se perdendo na memória audiovisual. Bitols, explica Arieta, recupera um período riquíssimo da cultura underground de Porto Alegre. “Faltava um filme sobre rock feito de dentro para fora, sem frescuras e sem cinebiografia, embora de um jeito bizarro.” O bizarro está a cargo da montagem, ou melhor, da retorcida desmontagem proposta na edição do filme, que trilha a cartilha do Cinema Desconstrução encampada pelo coletivo: “É operar o avesso do cinema”, resume o diretor, que cita como influência o marginal Meteorango Kid – O Herói Intergaláctico, do baiano André Luiz Oliveira.

A ficção conta também com aparições do músico Frank Jorge e do legendário Plato Divoraki, além de valer-se do tom documental ao desencavar imagens raras de bandas como Lovecraft, Tarcísio Meira”s Band e Colarinhos Caóticos. Uma dessas preciosidades é o registro em VHS do primeiro show de Júpiter Maçã (Flavio Basso) quando ainda se chamava Júpiter Maçã Combo, em 1994. Em outra cena de Bitols, o produtor Gordo Miranda, vivido por Carlos Eduardo Miranda, enxovalha o cenário roqueiro daqueles dias.

A atriz e roteirista Bia Werther, que no filme faz a misteriosa Rita, revela que o mote de exibição do filme será nas salas alternativas e nos cineclubes. “Numa estratégia de guerrilha pretendemos chegar até o Acre.” O coletivo Cinema8ito possui também conexões com cineclubes de Paris e Tóquio. Ela explica: “Exibimos seus filmes e eles exibem os nossos. Assim, vamos tomando de assalto espaços que, para muitos, podem parecer inalcançáveis.”

Cristiano Bastos – O Estado de S.Paulo

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