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Nilson, Augusto Licks, Carl Palmer – baterista do ‘Emerson, Lake & Palmer’ e Carlos Maltz, nos camarins da Canecão quando o EML veio ao Brasil pela primeira vez

O ex-roadie dos Engenheiros do Hawaii e baterista da banda Surfista Prateado, Nilson Batista, tem muitas histórias pra contar. Eu sempre pedia pra ele escrever alguma coisa para publicar aqui no blog, mas o tempo sempre era mais rápido do que a gente precisava que ele fosse. O tempo passava e nada de o alcançarmos. Enfim conseguimos quebrar alguma barreira invisível que impedia essa conversa e chegamos ao fim da viagem. Prontos para a próxima. Obrigada Nilson pelos 7 anos de dedicação aos ENG!!!

No alvorecer da década de 1990 conheci uma banda que mudaria o rumo da minha vida, já que uma outra banda mudara a minha vida anos antes da banda que mudaria o meu rumo. O rumo/direção: Rio de Janeiro, a banda: Engenheiros do Hawaii.

Cair na estrada e viver deste ofício requer muita coragem, montar uma banda é uma tarefa meio insana do ponto de vista familiar e conservador na nossa sociedade, começa como afronta e depois vira profissão, ganha – pão, vira vida, ar necessidade, vício…

Vício dos hotéis, tédio pelos vôos que atrasam, fãs por todos os lados, muitas apresentações, superexposição total. Nunca tinha visto uma banda tão comentada, tão adorada e odiada ao mesmo tempo.

Foi nesse clima que conheci o Augustinho Licks, guitarrista da banda, e nos identificamos bastante apesar do convite de entrar na banda tenha partido do baterista Carlos Maltz.

Eu, um típico paulistano tipo ÔrraMêu morando na cidade Maravilhosa e trabalhando com 4 gaúchos e uma equipe carioca de produtores e técnicos… muitos contrastes, risos, gargalhadas e um clima sério de que nada pode falhar, uma vez que para os padrões nacionais trabalhar com 3 roadies era e é um luxo.

Musicalmente eu não tinha visto um guitarrista com braços de “polvo”. Só pra exemplificar: numa mesma música ele tocava uma guitarra de 12 cordas na introdução, na parte A da música ia para o violão – que ficava numa estante, no refrão ia para a guitarra de 6 cordas e fazia uma cama harmônica com uma pedaleira midi, rs e uma gaitinha vez por outra, rs

O que o Loiro maluco, no bom sentido, inventava, o Augustinho fazia com tamanha competência, digo Louco porque ele (Gessinger) também mudava os instrumentos/arranjos nas partes das músicas; começar uma música no acordeon, baixo numa parte e piano em uma outra parte era normal, rs.

Nilson com duas fãs de Porto Alegre: Andreia e Letícia

Nilson com duas fãs de Porto Alegre: Andreia e Letícia

E o Maltz não ficava atrás, rs. Samples, bateria eletrônica e acústica, percussão…

Foi nessa atmosfera que nossos caminhos se cruzaram e por uns anos convivemos, anos intensos com ensaios, programas de rádio, divulgação em tv, festivais, shows em todas as capitais e no exterior, gravações dos discos, lojas de músicas, revistas especializadas, música e produção o tempo inteiro…

Tudo estava indo muito bem… até que começam os problemas, pausa!!!!!!

Mudanças!!!!!

Sai Augustinho, entra…

Bem deixa pra lá que é uma outra história, pois estou escrevendo sobre Augustinho que na maioria das vezes estava só em seu quarto aguardando nosso chamado para o sound check do show da noite, que era feito por etapas começando com o Augustinho, Maltz e depois o Gessinger, que pra mim era perfeito e podia fazer um som, tocar a bateria junto com o Cássio (roadie do Humberto) que tocava o contrabaixo com o Augustinho na guitarra, claro.

Era o máximo! É sempre legal fazer um som com quem toca bem e tem bom gosto, o toque dele nos Engenheiros era refinado e trabalhado ao mesmo tempo.

Ouvindo o disco “A Revolta dos Dândis” a percepção de que não tem overdubs de guitarra, me coloca frente a frente com a banda como se estivesse num ensaio na sala da casa de um dos integrantes num sábado à tarde antes de me preparar pra balada…

Essas lembranças estão virando histórias que serão contadas pelos que viveram e viram 3 gaúchos conquistarem seu lugar na memória do rock brasileiro contra alguns mas nunca contra todos.

As memórias se resumem na imagem dos jovens usando sempre a mesma velha calça jeans, com a foto da banda na camiseta e o bom surrado par de tênis, lutando pra pegar a palheta/troféu pequenino com uma assinatura e um número, uma recordação! Pois é, o Augustinho rabiscava o número do show na palheta.

Pra esses fãs o mais importante era saber quando era o próximo show e onde era! O resto era por conta deles que chegavam antes da banda!!!!

E pra gente que vive na estrada o importante é ter pra onde voltar, porque voltar e pra quem voltar!!!

Valeu Augustinho! A vida não tem *overdubs!

Sou Nilson Batista, pai da Manuela, baterista da banda Surfista Prateado, roadie da Mart´nália, produtor/Diretor de Palco e afins.

pax

abrax

* Overdub é um recurso usado em gravações. Por exemplo: dois guitarristas tocam numa mesma música, uma guitarra faz um solo e a outra faz a base para o solo. Um mesmo guitarrista pode gravar o overdub para depois o engenheiro de som sobrepor as duas gravação criando um efeito. O Augusto não usava overdub. Dessa forma o som que ele fazia no estúdio era o mesmo que tocava nos palcos.

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