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O  jornal Folha da Tarde publicou em 12 de fevereiro de 1981 uma nota sobre a dificuldade em o filme “Deu pra Ti, Anos 70” ser liberado pela censura. O momento era bastante delicado. O cinema nacional e a música foram submetidas à repressão e havia um cerceamento da liberdade de expressão, tudo isso imposto pela ditadura na forma de censura.

O diretor Giba Assis Brasil esclarece que nunca soube, e acha pouco provável, que o filme tenha sido analisado pelo Ministério da Saúde como afirmado na matéria: ” O Departamento de Censura era uma divisão da Polícia Federal, portanto vinculado ao Ministério da Justiça”,  explica Giba.

O filme Deu pra Ti, Anos 70 foi  liberado pela Censura e mostrou a “tão polêmica” cena em que os personagens de Augusto Licks, Wander Wildner, Nei Lisboa, Júlio Reny  fumam maconha em uma praia do Sul.  “O filme  ficou pronto em 1981, quando a Censura – e a própria ditadura;  já não era mais tão violenta”, complementa. Para garantir a divulgação, os diretores  Giba Assis Brasil e Nelson Nadotti articularam uma maneira de tornar pública a informação de que a única cópia do filme estava em Brasília. Nada melhor que o próprio Giba para relatar a saga da Censura contra o filme que poderia ter desaparecido:

Na época, a gente entregava os filmes no Departamento de Censura, na Polícia Federal de Porto Alegre, e alguns dias depois vinha buscar o filme com o “certificado de censura”, que além da classificação (“livre”, “14 anos” ou “18 anos”) também podia conter a determinação para cortar alguma cena. O Nelson Nadotti já tinha tido problema no ano anterior, com o filme “Sexo & Beethoven”, que teve duas cenas “de sexo” censuradas.

O problema é que, provavelmente por causa das cenas com drogas, mas principalmente porque se tratava de um longa-metragem (e a Censura de Porto Alegre nunca tinha lidado com um longa em super-8), eles optaram por enviar o filme pro escritório central da Censura, em Brasília. E o mais grave pra nós era o fato do super-8 não ter negativo nem cópia. O que mandaram pra Brasília era o único exemplar do resultado de quase dois anos inteiros de trabalho. Nosso pavor era que o filme, que tínhamos lutado tanto pra fazer, se perdesse nos labirintos da burocracia.

Os censores de Porto Alegre, bem ou mal, nós já conhecíamos. Se o filme desaparecesse ou fosse danificado, nós tínhamos de quem cobrar. Mas e em Brasília? Por isso, entramos em contato com o Tuio Becker,, nosso amigo e jornalista da Folha (infelizmente falecido em 2008), e pedimos que ele fizesse exatamente o que ele terminou fazendo naquela matéria: tornar público que o filme existia e estava em poder da Censura Federal , deixando subentendido que, caso o filme desaparecesse, a responsabilidade era deles. Acho que ajudou. Alguns dias depois, o filme chegou de volta, liberado sem cortes para maiores de 18 anos.

Giba Assis Brasil: roteirista e fundador da produtora Casa de Cinema de Porto Alegre

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